Ministério de Minas e Energia propõe acesso direto ao ONS para conexões de data centers durante o CDEC

Com mais de 200 pessoas nos dois dias de evento, a primeira edição do Congresso de Data Centers e Energia Crítica (CDEC) abordou gargalos do setor elétrico, avanços regulatórios e projetos em escala para posicionar o Brasil como hub digital

O Ministério de Minas e Energia (MME) defendeu, durante o Congresso de Data Centers e Energia Crítica (CDEC), a modernização das regras de acesso à rede básica de transmissão, com a proposta de eliminar a etapa da portaria ministerial e permitir que grandes consumidores, como os data centers, solicitem acesso direto ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). A medida pode reduzir o prazo de conexão em até oito meses e tornar o ambiente de negócios mais ágil e previsível.

Com mais de 200 participantes ao longo dos dois dias, a primeira edição do CDEC, organizado pelo Instituto O Setor Elétrico, divisão educacional do Grupo O Setor Elétrico, reuniu representantes do setor elétrico, da infraestrutura digital e do poder público para discutir gargalos, avanços regulatórios e projetos em escala capazes de posicionar o Brasil como um hub estratégico de data centers.

O primeiro painel de debate reuniu setores estratégicos sobre a participação do setor elétrico para a expansão de data centers no país. Participaram do encontro o Ministério de Minas e Energia (MME), a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e a Scala Data Centers. A discussão foi aberta com a pasta de Planejamento da Transmissão do Ministério, liderada pela Coordenadora-Geral, Thais Araújo, que defendeu a modernização das regras de acesso à rede básica diante da alta solicitação de conexão das empresas de data centers e projetos de hidrogênio verde.

“Hoje temos um decreto de 2005 que regula todo o acesso à rede, e são quase 20 anos de vigência. Funcionou bem por duas décadas, mas agora percebemos ineficiências e oportunidades de melhoria. Só a etapa da portaria leva de 6 a 8 meses e isso é muito tempo quando pensamos que data centers ficam prontos em menos de dois anos. Precisamos de um processo que seja compatível com essa nova realidade”, afirmou. 

A Coordenadora-Geral do Ministério destacou que o MME quer tornar o processo mais ágil e transparente. “Temos a intenção de dinamizar esse ambiente de negócios, modernizando as regras de acesso vigentes hoje para atrair o máximo possível de investimentos e novos consumidores de grande porte. A proposta extingue a etapa da portaria do Ministério, eliminando de 6 a 8 meses do processo e o consumidor iria direto ao ONS solicitar o parecer de acesso.”

Também contribuiu com as discussões o vice-presidente da Associação Brasileira de Data Centers, entidade apoiadora oficial do evento, Luís Tossi. Durante sua apresentação, ele ressaltou o descompasso entre a velocidade de expansão da demanda e o ritmo de desenvolvimento da infraestrutura elétrica no país.

“A velocidade de expansão da infraestrutura elétrica é muito mais lenta do que a construção de um hyperscale. Hoje, leva-se 18 a 20 meses para construir um hyperscale, enquanto no Brasil a construção de uma linha de transmissão pode levar mais de 7 anos, entre estudos, leilões, licenças e implantação”, afirmou o vice-presidente da ABDC. 

Inteligência artificial e os impactos na infraestrutura de missão crítica

Pilares centrais para o avanço dos data centers no Brasil, a inteligência artificial, a computação em nuvem e o big data foram o foco do painel de debates que reuniu Adriano Silveira, diretor de Desenvolvimento de Negócios IP Enterprise da Nokia; Marcos Paraíso, vice-presidente de Desenvolvimento de Negócios da Modular Data Centers; Joe Bergamaschine, sócio-diretor e COO da Atlantic Datacenters; com mediação de Nunziante Graziano, CEO do Grupo GIMI.

A discussão destacou como a expansão dessas tecnologias está intensificando as exigências por infraestrutura de missão crítica mais robusta, com maior demanda por energia, conectividade, baixa latência, escalabilidade e resiliência, reforçando a necessidade de planejamento integrado para sustentar o crescimento do setor no país.

Para Marcos Paraíso, o Brasil reúne vantagens competitivas importantes, como disponibilidade energética e condições naturais favoráveis, mas enfrenta uma corrida global cada vez mais acelerada, “É inegável que o Brasil tem vantagens importantes, temos energia, temos potencial e temos condições naturais favoráveis, mas precisamos deixar claro que não competimos apenas conosco mesmos. Hoje já existem data centers de 200 MW sendo construídos na Europa, a Ásia está avançando rapidamente com sites gigantescos, nos Estados Unidos, existe um volume enorme de projetos em andamento”, afirmou.

Na avaliação de Adriano Silveira, a convergência entre telecomunicações e energia ainda representa um dos principais desafios estruturais no Brasil. O aumento da densidade de cloud e do volume de dados exige redes cada vez mais robustas, não apenas em velocidade, mas em previsibilidade, confiabilidade e qualidade do acesso. “O desafio está em garantir a integração entre redes regionais, metropolitanas e nacionais, conectando de forma eficiente data centers, transmissão e processamento”, explicou.

Saindo da esfera do setor elétrico, Joe Bergamaschine chamou atenção para o estágio de maturidade do ecossistema digital brasileiro. Embora o país tenha hoje cerca de 85% de sua população conectada,  índice que tende a se aproximar de 100% com o avanço das soluções satelitais, segundo o diretor, ainda existem lacunas importantes na compreensão sobre armazenamento, distribuição e processamento de dados. 

Ele explica o motivo: “muitos grandes players focaram no 5G e, no passado, chegaram a se desfazer de seus próprios data centers. Agora buscam retomar o espaço, mas o cenário é outro e exige uma abordagem mais estruturada”, concluiu o COO da Atlantic Datacenters.

Impactos do crescimento de data centers no setor elétrico

Um dos destaques da programação da primeira edição foi a palestra do consultor independente de estratégia energética, Luiz Maurer, que apresentou uma análise crítica sobre a expansão de data centers e do hidrogênio verde no Brasil.

Durante a palestra, Maurer fez ponderações sobre a simplificação presente na MP 1318, que institui o REDATA (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center). Segundo consta no documento, a energia consumida por data centers deve ser considerada “verde” com base apenas na compensação energética mensal.

De acordo com o consultor, esse conceito ignora a física do sistema elétrico, uma vez que, para essa equivalência ser válida, seria necessário um sistema sem restrições de transmissão, com elevada flexibilidade operacional e capacidade de armazenamento praticamente infinita, condição inexistente no setor elétrico brasileiro. 

Como consequência, Maurer alerta que essa lógica tende a agravar distorções já observadas no setor elétrico brasileiro. “A gente já vive curtailment relevante de eólica e solar, hidrelétrica operando como vagalume e térmica sendo despachada como base load em crise hídrica”, afirmou. Para ele, exigir que data centers 24/7 sejam atendidos apenas por fontes intermitentes implica sobredimensionamento da geração: “para entregar 1 MW médio constante, você precisa instalar algo próximo de 3 MW de renovável, e o sistema não consegue absorver essa sobra”, afirma.

Scala AI City 

A Scala Data Centers apresentou, durante o CDEC, o projeto da Scala AI City, projeto que está em desenvolvimento no Rio Grande do Sul e pretende ser o maior complexo de data centers no Brasil. A apresentação foi conduzida por Luciano Fialho, vice-presidente de Desenvolvimento Corporativo da empresa, que detalhou a trajetória, os critérios técnicos e a escala do empreendimento.

A Scala AI City prevê aproximadamente 700 mil metros quadrados, com 17 edifícios verticais. Segundo Luciano Fialho, a viabilização do campus envolveu estudos técnicos apresentados ao Ministério de Minas e Energia e às agências reguladoras, considerando os impactos e custos globais de energia e também um dos fatores decisivos foi a subestação Guaíba 3.

“Trata-se de uma subestação com capacidade de suprimento em torno de 5 gigawatts que foi construída para atender a um desenvolvimento específico da Região Metropolitana de Porto Alegre que, há cinco ou seis anos, acabou não se concretizando. O ecossistema planejado para aquela região não avançou como se esperava. Ao longo da nossa trajetória, avaliamos diversas subestações em vários países e chegamos à subestação Guaíba 3, que fica praticamente ao lado do nosso campus. A distância entre a subestação e o terreno é de cerca de um quilômetro, pouco mais que isso”, afirmou.

Na avaliação da Scala Data Centers, a Região Sul atende dois requisitos fundamentais para um empreendimento de alto investimento, são eles: disponibilidade de energia e confiabilidade do fornecimento. O Rio Grande do Sul reúne uma infraestrutura robusta, com 81 subestações, cerca de 84% da geração proveniente de fontes renováveis, além da presença de linhas de 525 kV, que permitem conexões redundantes.

Visita ao data center da Equinix, SP3

Como parte da programação do CDEC, no dia 27 de novembro, cerca de 50 participantes realizaram uma visita técnica ao data center Equinix SP3, em São Paulo. A atividade permitiu conhecer de perto as instalações e os projetos de infraestrutura da empresa, reforçando na prática os temas debatidos ao longo do congresso.

Feira de negócios

Com mais de 218 profissionais do setor elétrico e de data centers passando pelos dois dias do evento, a feira de negócios do CDEC movimentou o ambiente de networking, promoveu conexões estratégicas e reforçou o diálogo entre os elos da cadeia de energia crítica e infraestrutura digital. A área de exposição contou com a participação de Grupo GIMI, Klaus & Naimer, Neocable e Romagnole. 

Para Nunziante Graziano, diretor executivo do Grupo GIMI, o tema central de data centers reflete uma transformação estrutural no setor elétrico. A nova onda do setor está ligada à quantidade de energia astronômica que os data centers vão demandar. Precisamos preparar todo o sistema para isso, não apenas a distribuição, mas também subestações internas e soluções técnicas capazes de suportar essa expansão”, disse. Segundo ele, esse cenário impõe desafios relevantes e abre espaço para novos projetos e fornecedores especializados, como o próprio Grupo GIMI.

A Klaus & Naimer destacou a importância da participação no CDEC como produtiva e alinhada ao momento de expansão do mercado de data centers no Brasil. Segundo Alexander Prado, gerente comercial da empresa, o avanço dos investimentos, impulsionado pela disponibilidade de energia renovável, reforça a importância de soluções técnicas específicas. “Temos produtos que nem sempre aparecem na estrutura física do data center, mas são fundamentais em temas como segurança, ruído e compatibilidade eletromagnética”, afirmou.

Visão semelhante foi apresentada pela Neocable. Segundo Farney Guerreiro, diretor comercial, o evento se destacou pela organização, localização e pelo público altamente qualificado, formado por profissionais que atuam diretamente no segmento. “Os conteúdos tiveram elevada qualidade técnica, o que tornou a nossa participação ainda mais relevante”, afirmou, destacando os cabos de alumínio da empresa como um elemento importante para a segurança das infraestruturas de data centers.

Já Fábio Nascimento, Executive Marketing Manager and Business Intelligence da Romagnole, ressaltou a importância do CDEC como ponto de aproximação com um mercado em franca expansão no Brasil. “O segmento de data centers e energia crítica tende a ganhar dimensão relevante no país e demanda fortemente infraestrutura elétrica, como transformadores, subestações, cabines, painéis e soluções de smart grid. Estar próximo dos tomadores de decisão é essencial para acompanhar esse crescimento”, concluiu.